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domingo, 21 de maio de 2017

O “golpe dentro do golpe” é entregar, em uma eleição indireta, a Presidência do país a Henrique Meirelles, com o aval da Globo.

Meirelles: um financista, vindo da J&F, no golpe dentro do golpe

Por SOS BRASIL SOBERANO · 20/05/2017 (373º dia do Golpe de 16)

O “golpe dentro do golpe” é entregar, em uma eleição indireta, a Presidência do país a Henrique Meirelles, representante histórico dos interesses do capital financeiro internacional e ex-executivo da própria J&F. Ele parece ter credenciais melhores do que as de Michel Temer para fazer as reformas ultraliberais do projeto derrotado nas urnas – e que motivaram a derrubada da presidenta eleita, Dilma Rousseff –, pelo menos na avaliação dos atores que deflagraram o ataque recente ao governo Temer, uma articulação que uniu Grupo Globo, J&F (dono da JBS) e Procuradoria Geral da República.


Essa parece ser a aposta por trás da guinada súbita do noticiário da Globo, acometido de uma inusitada indignação republicana. O editorial “A renúncia do presidente” foi divulgado no meio da tarde da última sexta-feira (19) e pede a saída de Temer com base em uma argumentação que não se constrange, contudo, de usar a Constituição para defender eleições indiretas, depois de tê-la rasgado: derrubando a presidenta eleita e promovendo o desmonte do Sistema de Seguridade Social previsto no texto constitucional de 88.

Desde a última quarta-feira (17), a sociedade assiste perplexa a uma saraivada de acusações, áudios, vídeos, comentários, fotos, que constroem um roteiro de promiscuidade e ilícitos envolvendo o governo Michel Temer, parlamentares e partidos, de um lado, e a J&F, do outro. O fato de o atual ministro da Fazenda e potencial candidato à sucessão de Temer ter sido, até a queda de Dilma, executivo de ponta do grupo corruptor não mereceu destaque. Henrique Meirelles foi presidente do conselho de administração da J&F, de 2012 a 2016, e presidente do banco Original, controlado pela J&F, entre 2015-2016. Totalmente digital e criado como projeto pessoal de Meirelles dentro do grupo, o banco Original não vai bem. Em março deste ano, segundo o jornal Valor Econômico, o Original vendeu sua marca à J&F, sua própria controladora, numa operação de R$ 422 milhões, que permitiu ao banco fechar o exercício de 2016 com lucro. Sem o negócio, teria apresentado prejuízo operacional de R$ 278,6 milhões no ano.

Meirelles assumiu na J&F em março de 2012 com a missão de criar estratégias para a expansão da empresa dentro e fora do país. Em matéria da revista Exame, na ocasião, Joesley Batista, o delator e um dos donos da J&F, explicava a contratação: “O Meirelles não vai ser apenas um consultor. Vai cobrar resultados dos executivos e traçar estratégias para a expansão do negócio”. Nesse contexto, não é possível ignorar – política ou judicialmente – a participação altamente estratégica do ministro nas atividades da J&F.

Tirar um presidente por seu comprometimento com um grupo empresarial e substituí-lo por um ex-funcionário e estrategista direto do mesmo grupo não pode ter motivação republicana. O que se pretende, com a troca, é buscar legitimar o golpe dado na Presidência e que continua em curso, com ataques à vontade popular e à cidadania brasileira. (Desprezadas as demais motivações de ordem econômica puramente empresarial que podem estar envolvidas no lance, considerando que a JBS, controlada pelo J&F, é uma das maiores anunciantes do Grupo Globo).

Henrique Meirelles fez sua carreira no setor financeiro internacional. Começou no BankBoston em 1974, e lá ficou por 28 anos. Entre outras funções, ocupou a presidência da instituição no Brasil e na matriz – o BankBoston mundial. Em 1999, o banco se fundiu ao grupo financeiro Fleet, criando o FleetBoston Financial, também presidido por Meirelles. O engenheiro que virou financista acumula prêmios pelos serviços prestados ao setor bancário. Melhor Banqueiro da América Latina em 2006, Prêmio Lide de Personalidade do Ano, dado em 2010 pela organização lobista de João Doria Jr.; Prêmio Bravo Awards de Financista do Ano em 2008; Prêmio Emerging Market Awards de Melhor Banqueiro Central para América Latina, também em 2008.

Já foi do PSDB, do PMBD, e agora é filiado ao PSD, partido de Gilberto Kassab. Nenhuma sigla, contudo, reflete o compromisso fundamental de sua biografia: o setor financeiro internacional e as empresas transnacionais atreladas a ele, para os quais pretende entregar o Brasil. E já começou a fazê-lo, ao congelar os gastos públicos por um período de 20 anos, ao propor medidas que inviabilizam a aposentadoria e fomentam o mercado de previdência privada, ao atacar direitos dos trabalhadores, ou ao permitir uma política econômica sem um banco forte de apoio ao desenvolvimento, induzindo o BNDES a atuar com taxas de mercado, entre outras iniciativas que Meirelles defende em todos os eventos públicos de que participa.

Contra o golpe, e contra o golpe dentro do golpe, e quaisquer outras manobras que agravem as violações às instituições brasileiras, é preciso restabelecer legitimidade ao governo e desfazer as medidas recentes que não contam com nenhum respaldo popular: eleições gerais diretas. Já.

SOS BRASIL SOBERANO:
Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge)
Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

"Fora Temer" e "Diretas já" - o mais eficaz programa mínimo para colocar o povo em movimento contra o golpe

POR QUE "FORA TEMER" E "DIRETAS JÁ"?

Por Breno Altman - via Facebook - 08/09/2016

Desde o afastamento provisório da presidente Dilma Rousseff, em 12 de maio, praticamente todo o campo democrático trocou a consigna "não vai ter golpe" por "fora Temer".

A vitória preliminar do golpismo, abrindo processo de impeachment, colocou os setores populares na defensiva e a questão central da resistência passou a ser afastar o governo interino através da absolvição da presidente no julgamento final pelo Senado.

A escolha de "fora Temer", e não "volta Dilma", foi determinada pela necessidade de ampliar ao máximo possível a coalizão de forças políticas e cidadãos disposta a combater o golpe em curso.

Isso significava adotar uma política que permitisse a incorporação até mesmo de quem era dura oposição à mandatária, mas não aceitava a ruptura constitucional comandada pelo golpismo.

A verdade é que muita gente disposta a lutar contra Temer não se animava a defender explicitamente o governo de Dilma, especialmente por conta das medidas adotadas no segundo mandato.

Até o julgamento definitivo, o PT e outras organizações progressistas tampouco aceitavam ideias como o plebiscito para antecipação de eleições presidenciais, caso a presidente retornasse ao comando do Estado.

Além de fragilizar a defesa da Constituição perante o golpismo, pois esse tipo de plebiscito que encurta mandatos não tem previsão legal, tal proposta resultava só provocava divisão nos momentos decisivos que se aproximavam.

Com a consumação do impeachment fraudulento, tudo muda de figura: a Constituição já foi rompida, um governo usurpador se consolidou e a bandeira de eleições diretas para presidente da República passou a ser o melhor caminho, se não o único, para a reconstrução do Estado de Direito.

Constituiria frágil ilusão, além de raquítica como fator de animação dos democratas de todas as tendências, a troca da reivindicação de uma solução baseada na soberania popular por outra que dependeria do STF, como seria o caso da anulação do impeachment.

"Fora Temer" e "Diretas já", nestas circunstâncias, se configuram como o mais eficaz programa mínimo para colocar o povo em movimento contra o golpe, como prova a ampla e unitária mobilização dos últimos dias.

Por esse motivo, praticamente todas os principais partidos de esquerda e movimentos sociais, além da Frente Brasil Popular e da Frente Povo sem Medo, confluíram para essa posição, permitindo multiplicar a força e a coesão da resistência.

domingo, 1 de novembro de 2015

Por que os artistas estão calados agora, num momento crucial da vida brasileira em que tambores que soavam na ditadura voltam a bater? Não há dúvida de que quem lutava pelas Diretas Já só tem uma opção hoje: ser contra o impeachment. Não se trata de ser contra ou a favor o PT ou o PSDB. É uma questão maior. Está em jogo um regime e não um governo.

Artistas-Já contra o Impeachment

Alex Solnik - 31/10/2015 - Brasil 247

Onde estão os artistas?

A ausência dos artistas da vida política brasileira é um fato assustador e preocupante. Parece que sumiram todos.

O oposto do que aconteceu entre os anos 64-84 quando eles jamais se omitiram em relação ao grande problema nacional que era a ditadura militar.

Podem ver nas fotos. Lá estão Odete Lara, Norma Bengel, Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Nelson Pereira dos Santos, Edu Lobo, Elis Regina etc etc de mãos dadas com políticos nas passeatas e nos comícios.
1968 - Passeata dos 100 mil - Nana Caymmi e Gilberto Gil protestam contra a ditadura
Nos jornais então chamados nanicos onde trabalhei a toda hora fazíamos entrevistas com artistas e ídolos se posicionando a favor das eleições diretas para presidente da República. Regina Duarte, Zico, Sócrates, Palhinha falavam sem medo contra a ditadura.

Por que os artistas estão calados agora, num momento crucial da vida brasileira em que tambores que soavam na ditadura voltam a bater?

Por que os artistas estão divididos? Será mais difícil posicionar-se agora do que no tempo da ditadura?
1968 - Passeata dos 100 mil - Chico Buarque

Acho que não. Não há dúvida de que quem lutava pelas Diretas Já só tem uma opção hoje: ser contra o impeachment. Não se trata de ser contra ou a favor o PT ou o PSDB. É uma questão maior. Está em jogo um regime e não um governo.

Ah, mas o impeachment está na Constituição, então não tem nada a ver com golpe – é a tese favorita dos que o defendem.

O impeachment que está na Constituição, aquele que não tem nada a ver com golpe é o impeachment unânime, inconteste, um impeachment que salta aos olhos – exatamente como aconteceu com Collor em 92. Não havia dúvida quanto àquele impeachment. Como o país não tinha dúvida ninguém foi para a rua defender Collor. Itamar assumiu e fim de papo. Bola pra frente.

As atrizes Tônia Carreiro, Eva Vilma, Odete Lara, Norma Bengell e Ruth Escobar em passeata contra a censura (atrás de Ruth, o crítico de arte Mário Pedrosa), Correio da Manhã, 1968.

O suposto impeachment atual não é unânime. Há dúvidas. Entre juristas, políticos, jornalistas e até flamenguistas. In dubio pro reu – não é assim? In dubio não é impeachment.

Se há dúvidas acerca do impeachment não é o impeachment da constituição. É o impeachment que leva à divisão entre brasileiros.

Impeachment não é golpe quando faz sentido. Quando não faz, pode levar ao golpe. Quer ver?

Mesmo antes de ser decretado definitivamente ele seria discutido durante seis meses na Câmara dos Deputados, com a presidente afastada e em seu lugar Eduardo Cunha, num previsível clima exacerbado mais ainda do que já está e que naturalmente vai extravasar para as ruas.

Durante esses seis meses todos aqueles movimentos vão convocar as pessoas para as ruas para pressionarem os deputados. Não dá para não imaginar que os simpatizantes do lado oposto não façam o mesmo. Nem será impossível os dois grupos beligerantes se enfrentarem. Nem podem ser desprezados os provocadores de sempre. A economia capenga e uma “convulsão social”. Dá para imaginar no que isso pode dar?

Um clima de baderna é extremamente propício àquela velha palavra de ordem, àquele filme que nós já vimos: chega de bagunça, só os militares podem dar um jeito nisso. E aí será tarde.

Os artistas influenciam as pessoas muito mais que os políticos. Por isso eles foram decisivos nas Diretas Já, que não teriam tido sucesso sem as multidões nos comícios. E quem atraiu multidões não foram os políticos, foram os artistas. Não com seus números musicais, mas com suas entrevistas. A ditadura não conseguiu calar os artistas.

Agora, porém, eles se calam sem que ninguém os amordace. Eles se amordaçam sozinhos.
1984 - Diretas Já - Chico Buarque à esquerda e FHC (à direita) 
É triste constatar que artistas de qualidade e personalidade se submetem a patrocínios de empresas que passam a gerir sua carreira e a decidir por eles para qual órgão ou sobre qual assunto eles devem ou não dar entrevistas.

E que há assessorias que avisam, antes da entrevista que certo artista, que sempre falou de política, “não fala de política”.

A despolitização dos artistas é um fenômeno que merece ser investigado mais profundamente.

Eles ajudaram a derrubar a ditadura, mas se recusam a manter viva a democracia.