quarta-feira, 25 de novembro de 2015

"Nesta carta singela desejo lhe dizer que me senti ofendido e desrespeitado como cidadão com seu discurso ao justificar seu voto a favor da prisão de Delcídio do Amaral, nesta manhã. A senhora disse que antes nos fizeram acreditar que a esperança venceu o medo. É evidente que a senhora se referiu à campanha eleitoral e eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem citá-lo."

Carta aberta à ministra Carmen Lúcia, do STF

Por Dom Orvandil Moreira Barbosa - Cartas Proféticas - 25/11/2015

Prezada Ministra Carmem Lúcia

Nosso País acordou estupefato com a prisão de um senador da República. Por outro lado, alivio-me com a prisão de um banqueiro, um dos mais ricos do Brasil.

Não guardo intimidade com o pensamento do Senador Delcídio do Amaral em virtude de suas origens políticas, ligadas à privatizações e ao nefasto neoliberalismo. Porém, sua prisão nos coloca sob espanto pelo colorido de arbitrariedade em face da imunidade parlamentar de que gozam os eleitos pelo povo para ocupar cadeira na mais alta casa legislativa.

Perdoe-me, ministra Carmem, por me dirigir a senhora sem o traquejo jurídico próprio dos advogados, já que não sou um e sem a formalidade de um tribunal, já que não pertenço a nenhum.

Aqui tenho o objetivo de questioná-la pelo que disse na 2ª turma do STF ao justificar seu voto na decisão do ministro Teori Zavascki ao ordenar a prisão do Senador Delcídio do Amaral e do Banqueiro André Esteves.

É de se esperar que os homens e as mulheres eleitos e eleitas sejam honestos, honestas, probos e probas nas suas atividades parlamentares, embora alguns afrontem e desrespeitem a sensibilidade social e a cidadania, como é o caso do Senador Ronaldo Caiado, que frequentemente usa camiseta amarela com os sinais de 9 dedos, em deboche a deficiência física do ex-presidente Luiz Inácio Luiz da Silva, sem que seja incomodado em momento algum por esse preconceito e crime.

Nesta carta singela desejo lhe dizer que me senti ofendido e desrespeitado como cidadão com seu discurso ao justificar seu voto a favor da prisão de Delcídio do Amaral, nesta manhã.

A senhora disse que antes nos fizeram acreditar que a esperança venceu o medo. É evidente que a senhora se referiu à campanha eleitoral e eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem citá-lo.

E vencemos mesmo, ministra Carmem. Milhões de brasileiros fomos ameaçados com o estouro do dólar, com a fuga dos empresários que investiriam em outros Países abandonando o Brasil ao desemprego e à pobreza. Uma atriz da TV Globo apareceu em noticiários e na propaganda eleitoral do PSDB fazendo caras teatrais de assustada e dizendo: “ai, estou com medo”. Pois vencemos essa tentativa. Os milhões de votos investidos em Lula transcenderam fronteiras partidárias para afirmar nossa esperança contra as ameaças rasteiras e desonestas. Vencemos o medo, com muita esperança. O Brasil se sentiu recompensado com essa vitória. A senhora sabe!

Como cidadão e como povo me sinto ofendido e agredido em minha esperança e em minha fé com essa sua fala, para mim irônica e sem nenhuma relação com o mensalão da mídia, com muitos casos dúbios e influenciados pela opinião publicada.

A senhora carregou sobre a ironia sem nexo ao afirmar que “agora o escárnio venceu o cinismo”.
Qual a relação do possível crime do Senador Delcídio do Amaral, nem investigado totalmente e, muito menos julgado e condenado, com a vitória da esperança em 2002?

A senhora quer nos envolver em todos os possíveis crimes de Delcídio? A senhora falou pensando em investigação e condenação do ex-presidente Lula, o candidato a respeito de quem se usou o slogan “a esperança venceu o medo”? A senhora já sabe, mesmo sem julgamento, que o Senador Delcídio do Amaral é criminoso, até mesmo antes da manifestação da casa onde ele é parlamentar?
Na fundamentação de seu voto a favor da prisão do aludido senador a senhora asseverou que “ agora o escárnio venceu o cinismo”.

Pergunto se o seu voto não se referia a um senador? Se se referia ao Senador Delcídio do Amaral qual a relação da ironia com os votos de milhões de brasileiros que tiveram esperança de mudar aquela realidade triste de desemprego, de miséria e de pobreza em 2002?

A senhora ameaçou quem ao afirmar posteriormente que “criminosos não passarão sobre a justiça”, alertando a todos do mundo da corrupção?

Perdão, ministra, mas a minha ofensa também vem do fato de a senhora misturar ironicamente fatos e valores sem nenhuma relação, sendo que a esperança realmente venceu o medo e sempre vencerá as vilanias da classe dominante, principalmente da rapinagem dos poderosos internacionais, que atuam por meio de jagunços nacionais.

Pior, a sua referência de falso senso de oportunidade choca por estabelecer nexos irreais entre um senador atual, preso acusado de atrapalhar investigações, com toda a força da esperança de um povo.
Choca mais o fato de a senhora não fazer nenhuma menção ao banqueiro André Esteves, dono do Banco BTG Pactual, também preso como suspeito de fazer uma operação polêmica na área internacional da Petrobras, ao comprar poços de petróleo na África, sendo ele um dos homens mais ricos do Brasil, um País pobre e, mesmo assim, de esperanças que vencem os medos.

A senhora não disse nada sobre André Esteves foi pelo fato de ele ser banqueiro e rico? Haveria na senhora algum senso de seletividade, como o há na mídia que reforçou com grande destaque as suas palavras?

Enfim, perdoe-me pela ousadia de exercer o direito de questionar, de me indignar contra as seletividades e contra o deboche em relação ao povo que tem esperança, apesar do medo que diuturnamente lhe impingem.

• Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
• Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.

9 comentários:

Dalva Nascimento disse...

Show!!!

Gilmar Barbosa disse...

Parabéns pelo belo texto. Também me senti ofendido com o que foi escrito pela Ministra. Me pergunto, onde chegou o judiciário brasileiro? Uma ministra da mais alta corte agir com tamanho deboche e ainda mostrar claramente como ela atua nessa corte. De forma totalmente parcial. Seu texto me representa, Dom Orvaldil! Obrigado!
Precisamos conseguir um jeito de um texto como este chegue até o STF.

maria ceci disse...

Parabéns Dom ORVANDIL .Precisamos de pessoas assim que sabem analisar as palavras que se soltam ao vento sem respeito e consideração com o povo brasileiro.Que reine a paz e a justiça vigore sobre TODOS os culpados e criminosos sem excecão .alguma.

Xavier Lemos disse...

Me solidarizo com o Bispo Dom Orvandol e acrescento se a Douta Ministra, juntamente com os demais Ministros da mais alta Corte do país não se envergonham de estuprar a Carta Magna, quando mandam prender um Senador da República em pleno exercício do mandato, sem existir o devido fragrante de crime.
Não que as denúncias não são sérias, se devidamente comprovadas, se periciadas as fitas se mostrem autênticas. É Douta Ministra na ânsia de politizar um possível crime, a Suprema Corte ofendeu a Constituição Brasileira.
Nenhum, mas nenhum brasileiro pactua com o possível crime do Senador Delcídio do Amaral ou de quem quer que seja, mas não podemos admitir que a Corte responsável por zelar pela Carta Magna a afronte sob o rasteiro argumento de combater um crime.
É função do povo e através de seus representantes eleitos decidir sobre o mandato ou privação de liberdade de um cidadão por este eleito e legitimado nas urnas, fora é claro em flagrante delito.
Manuel Xavier Lemos Filho.

Marcia Rezende disse...

Realmente, esse texto deve chegar ao STF! A ministra julgou de maneira seletiva mesmo. Sua análise e seu texto estão perfeitas. Concordo!!

JOSE ANTONIO PEREIRA RODRIGUES disse...

O bispo da igreja brasileira falando pelos 7% de brasileiros que apoiam o atual governo e o seu partido em desconstrução.

Professor disse...

A honestidade é esperada de todos, inclusive dos juízes e juízas da Suprema Corte Brasileira. A parcialidade dos juízes na apresentação dos fatos jurídicos, me assusta mais que os escândalos de corrupção. Corruptos na sociedade podem ser presos, se a justiça funciona bem, mas quando a justiça começa a partidarizar aí o cidadão de bem pode se assustar!

zerolopes disse...

Tenho plena convicção que a Justiça Brasileira é uma das mais pífias do mundo: cara (1,2% do PIB), ineficiente, morosa e pior de tudo ... partidária (PSDB)

maria betania da silva carvalho disse...

Ótima análise!!!! A Justiça Brasileira atua com Dois Pesos e Duas Medidas....Agora pergunto: Por que Cunha ainda tá solto, mesmo com provas irrefutáveis contra ele???