Por que eles querem que o Brasil esqueça Lula?
Por que com ele é como se Getúlio falasse; ou Allende para os chilenos; ou Perón para os argentinos; ou Cárdenas para os mexicanos. Com uma diferença: Lula vive
Por: Saul Leblon - Carta Maior - 04/11/2016
Por: Saul Leblon - Carta Maior - 04/11/2016
Respira-se um cheiro azedo de fardas, togas e ternos empapados da sofreguidão nervosa que marca as escaladas de demolição do Estado de Direito nos solavancos da História.
Consulte os anos 30 na Alemanha, os 50 do macarthismo norte-americano, os 60 da ditadura brasileira, os 70 do massacre chileno...
Há um clima de dane-se o pudor por parte das elites e da escória que a serve.
Faz parte desses crepúsculos institucionais a perda dos bons modos e a convocação das milícias, enquanto o jornalismo isento finge não ver a curva ascendente do arbítrio.
Com a mesma desenvoltura com que se anistia montanhas de dólares remetidos ao exterior, classifica-se o MST como ‘movimento criminoso’.
Persegue-se e intimida-se estudantes secundaristas com lista de nomes exigindo que se delate endereços de colegas ocupantes ...
Invade-se a bala dependências e movimentos sociais e de metralhadora em punho escolas tomadas por adolescentes que reclamam o direito de opinar sobre a própria educação.
Ensaios da orquestra.
Decibéis crescentes, afiados pelo mesmo diapasão ecoam de diferentes pontos do país.
Só não ouve quem não quer.
Há dinheiro, patrocínio e poder em jogo na incapacidade auditiva para ouvir os gritos da democracia sendo violada na sala ao lado de onde se discute a ‘reconstrução do Brasil’.
A conveniência reflete a insurgência que se esboça.
A resistência ao golpe escapa ao que se supunha ser o alvo isolado e triturado pela centrífuga da Lava Jato.
Adolescentes falam o que a vastidão dos votos nulos, brancos e abstenções cifraram nas urnas municipais, quando suplantaram os vitoriosos de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre...
Se as duas vozes se fundirem num idioma único, o que acontecerá?
O cheiro azedo exalado das fardas, togas e ternos de corte fino, empapados da sofreguidão nervosa, reflete essa esquina incerta da História para a qual caminha o país.
A truculência policial e midiática sobe rápido os degraus da exceção.
Essa é a hora diante da qual a resistência progressista não pode piscar.
Daí a importância da campanha lançada neste dia 10 de novembro para sacudir a hesitação em defesa do óbvio.
O óbvio hoje começa por defender Lula.
Porque sem defender Lula, não será possível defender mais ninguém, e mais nada, do galope desembestado da ganância no lombo da violência fardada e da cumplicidade togada.
Por ninguém, entenda-se o Brasil assalariado e o dos mais humildes.
A imensa maioria da população.
Aquela que vive do trabalho, depende de serviços públicos, tem seu destino atado ao do país, ao do pre-sal, ao da reindustrialização, ao da democracia social, carece de cidadania, respira salário mínimo e enxerga na previdência o único amparo à velhice e ao infortúnio.
Lula é a espinha histórica das costelas de resistência que precisam se unir para conter a demolição em marcha disso tudo.
Desempenha essa função por uma razão muito forte.
Essa que o milenarismo gauche parece ter esquecido --ou hesita em saber que sabe-- enquanto aguarda o juízo final de Moro para recomeçar do zero.
‘Recomeçar do zero’ é a profilaxia recomendada pelos sábios do golpe em todas as frentes.
Desde a demolição dos direitos trabalhistas, à revogação da soberania no pre-sal, passando pela Constituição de 1988, o Prouni, a previdência ...
Mas, principalmente: recomeçar do zero esquecendo Lula.
Porque ele é –ainda é Lula-- a inestimável referência de justiça social na qual a imensa parcela dos brasileiros de hoje e de ontem se reconhecem.
É dele a voz que quando fala e é ouvida no campo e nas cidades.
Mais que simplesmente ouvida: respeitada e compreendida.
A diferença dessa voz é que ela não carrega só palavras.
Carrega experiência, luta, erros, acertos, raiva, riso, derrotas, vitórias, cujo saldo são conquistas coletivas encarnadas em holerite, comida, emprego, autoestima e esperança.





















